
{"id":309,"date":"2014-08-07T14:36:01","date_gmt":"2014-08-07T14:36:01","guid":{"rendered":"http:\/\/www.edufma.ufma.br\/?p=309"},"modified":"2016-05-22T11:45:32","modified_gmt":"2016-05-22T14:45:32","slug":"resenha-3","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.edufma.ufma.br\/index.php\/2014\/08\/resenha-3\/","title":{"rendered":"Resenha"},"content":{"rendered":"<p><strong>A CONDI\u00c7\u00c3O MARIEL NO CONTEXTO DA REVOLU\u00c7\u00c3O CUBANA<\/strong><\/p>\n<p><em>Roberto Mauro Gurgel Rocha [1]<\/em><\/p>\n<p>A an\u00e1lise dos fen\u00f4menos sociais e das grandes mudan\u00e7as que ocorrem no seio da sociedade nos levam tanto \u00e0 grande paix\u00e3o pela narrativa ou \u00e0 sua rejei\u00e7\u00e3o. N\u00f3s, os jovens militantes dos anos 60\/70 do s\u00e9culo passado, ao falar da Revolu\u00e7\u00e3o Cubana t\u00ednhamos um brilho nos olhos e v\u00edamos alimentada a nossa esperan\u00e7a de, \u00e0 sua semelhan\u00e7a, ter no Brasil uma sociedade mais justa animada pelos ideais do Socialismo, que muitas vezes n\u00e3o sab\u00edamos definir bem do que se tratava, mas acredit\u00e1vamos que nos levaria a um mundo novo onde reinavam a justi\u00e7a social e o direito de todos. V\u00edamos na imagem de Cuba em rela\u00e7\u00e3o ao mundo Capitalista (muito especialmente aos Estados Unidos da Am\u00e9rica) a imagem do combate entre Davi e Golias de que nos fala o texto b\u00edblico.<\/p>\n<p>Em nossa vis\u00e3o, o desejo de uma nova realidade conquistada pelos revolucion\u00e1rios cubanos nos estimulava a prosseguir pautados nos escritos e pr\u00e1ticas de Che Guevara e Fidel Castro. Amadurecendo em nossas an\u00e1lises e pr\u00e1ticas, juntamente com outros colegas da Universidade Federal do Maranh\u00e3o e membros do movimento social, criamos nessa institui\u00e7\u00e3o da Educa\u00e7\u00e3o Superior o N\u00facleo de Estudos da Am\u00e9rica Latina \u2013 NEAL. Os ventos do ideal Bolivariano sopraram fortemente e, gra\u00e7as ao esfor\u00e7o de Ludmila Lago, Raimundo Palhano, Maria Jos\u00e9 Cardoso, Fabiana, Gilm\u00e1rio, Hipolito e eu, conseguimos criar um espa\u00e7o latino americano de exposi\u00e7\u00f5es no Pal\u00e1cio do Cristo Rei, realizar Semin\u00e1rios, interc\u00e2mbios, chegando a publicar pelo menos um Caderno de Estudos. Foi um momento marcante que nos animou grandemente na d\u00e9cada de 90, quando tivemos um est\u00edmulo do amigo Jackson Lago, C\u00f4nsules e de Embaixadores, criando canais de comunica\u00e7\u00e3o com a Argentina, o Uruguai, Costa Rica, M\u00e9xico e Cuba principalmente. Com o apoio da Universidade chegamos a publicar dois livros sobre a Am\u00e9rica Latina. Certamente nossos ideais por um mundo novo n\u00e3o morreram, mas, nossos novos engajamentos e mudan\u00e7as ocorridas no panorama universit\u00e1rio da UFMA levaram a novos discernimentos&#8230;<\/p>\n<p>O lan\u00e7amento do livro sobre \u201cA Condi\u00e7\u00e3o Mariel: Mem\u00f3rias Subterr\u00e2neas da Revolu\u00e7\u00e3o Cubana\u201d, da autoria de Rickley Leandro Marques foi, para n\u00f3s, um momento de reflex\u00e3o e amadurecimento. N\u00e3o conhe\u00e7o pessoalmente o autor, mas quero parabenizar-lhe pela forma radical, mas sem extremismo, como trata em seu livro a hist\u00f3ria de um grupo socialmente exclu\u00eddo no avan\u00e7ar de um processo revolucion\u00e1rio, pela sua forma de pensar e agir, mesmo batalhando por ideais comuns. Na primeira parte do livro, Rickley narra com detalhes precisos e fi\u00e9is os grandes momentos da Revolu\u00e7\u00e3o Cubana, mediante a an\u00e1lise de suas fases iniciadas a partir de 8 de Janeiro de 1959 at\u00e9 o momento da alian\u00e7a com os Sovi\u00e9ticos como uma forma de sobreviv\u00eancia ao bloqueio Norte-americano. O perfil do homem novo e sua constru\u00e7\u00e3o mostram como se pensava um ser revolucion\u00e1rio e para tal, para atingir os seus padr\u00f5es, criavam-se escolas de trabalhadores, eram feitos Congressos, enfim, lutava-se pela nova Cuba, livre das teias do imperialismo. Mas, como em qualquer processo, surgem formas de pensar distintas, que s\u00e3o aceitas ou negadas pelo grupo hegem\u00f4nico e, como narra o autor do livro, a partir do chamado caso Padilha \u2013 um intelectual reconhecido pelos seus escritos e passado a ser rejeitado pelos revolucion\u00e1rios, come\u00e7a a surgir uma repress\u00e3o aos que pensavam de outro modo, que cresce e chega ao seu extremo na ocupa\u00e7\u00e3o significativa da Embaixada do Peru em Cuba. \u00c9 a\u00ed que come\u00e7a ser mais vis\u00edvel a luta dos discordantes e o aparecimento da Condi\u00e7\u00e3o Mariel<\/p>\n<p>A Segunda parte do livro \u00e9 dedicada ao fen\u00f4meno Mariel, ou para tratar seus membros como gente aos marielinos. E quem s\u00e3o eles? S\u00e3o intelectuais cr\u00edticos lutando pela liberdade de pensar mais livre, s\u00e3o os homossexuais, principais atores sociais inc\u00f4modos \u00e0 situa\u00e7\u00e3o revolucion\u00e1ria, que, como tal, eram identificados pelos revolucion\u00e1rios cubanos. A abertura do Porto de Mariel em Cuba para sa\u00edda destes inc\u00f4modos, certamente abriu uma nova esperan\u00e7a de vida aos marielinos, que, com todas as dificuldades, chegaram ao Porto de Cayo Hueso em Miami, nos Estados Unidos. Esperando serem bem recebidos, desde a chegada perceberam ser desagrad\u00e1vel a sua presen\u00e7a e o restante desta parte do livro \u00e9 a narrativa da via crucis desses seres humanos marcados pela condi\u00e7\u00e3o de quererem ser diferentes. Rejeitados pelos cubanos em sua terra, passam a ser rejeitados pelos cubanos sa\u00eddos nos primeiros momentos da Revolu\u00e7\u00e3o principalmente por raz\u00f5es de ordem econ\u00f4mica. A pr\u00f3pria Sociedade norte-americana os v\u00ea com certo desd\u00e9m.<\/p>\n<p>Os marielinos s\u00e3o ent\u00e3o v\u00edtimas de uma dolorosa exclus\u00e3o, passando \u00e0 condi\u00e7\u00e3o de outsiders, defensores da cultura cubana no ex\u00edlio sem grandes condi\u00e7\u00f5es, chegando a ter como estrat\u00e9gia de sobreviv\u00eancia uma Revista Cultural e a publica\u00e7\u00e3o de livros. \u00c9 doloroso ver a forma de tratamento recebida pelos marielinos, mas \u00e9 animadora a maneira como resistem, e, mesmo na condi\u00e7\u00e3o de exclus\u00e3o a que s\u00e3o submetidos, encontram meios para dar o seu grito.<\/p>\n<p>O livro levou-me a uma profunda reflex\u00e3o, ao repensar meus modos de pensar sobre o meu agir e de valorizar cada vez mais o valor da diversidade&#8230; Recomendo a quem quer ser cada vez mais impregnado pelos desejos de uma plena justi\u00e7a social, que n\u00e3o deixe de ler o livro.<\/p>\n<p>[1] &#8211; Roberto Mauro Gurgel Rocha \u00e9 professor aposentado da Universidade Federal do Maranh\u00e3o e\u00a0Ex-Diretor do N\u00facleo de Estudos da Am\u00e9rica Latina &#8211; NEAL.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>A CONDI\u00c7\u00c3O MARIEL NO CONTEXTO DA REVOLU\u00c7\u00c3O CUBANA Roberto Mauro Gurgel Rocha [1] A an\u00e1lise dos fen\u00f4menos sociais e das grandes mudan\u00e7as que ocorrem no seio da sociedade nos levam tanto \u00e0 grande paix\u00e3o pela narrativa ou \u00e0 sua rejei\u00e7\u00e3o. N\u00f3s, os jovens militantes dos anos 60\/70 do s\u00e9culo passado, ao falar da Revolu\u00e7\u00e3o Cubana t\u00ednhamos um brilho nos olhos e v\u00edamos alimentada a nossa esperan\u00e7a de, \u00e0 sua semelhan\u00e7a, ter no Brasil uma sociedade mais justa animada pelos ideais do Socialismo, que muitas vezes n\u00e3o sab\u00edamos definir bem do que se tratava, mas acredit\u00e1vamos que nos levaria a um mundo novo onde reinavam a justi\u00e7a social e o direito de todos. V\u00edamos na imagem de Cuba em rela\u00e7\u00e3o ao mundo Capitalista (muito especialmente aos Estados Unidos da Am\u00e9rica) a imagem do combate entre Davi e Golias de que nos fala o texto b\u00edblico. Em nossa vis\u00e3o, o desejo de uma nova realidade conquistada pelos revolucion\u00e1rios cubanos nos estimulava a prosseguir pautados nos escritos e pr\u00e1ticas de Che Guevara e Fidel Castro. Amadurecendo em nossas an\u00e1lises e pr\u00e1ticas, juntamente com outros colegas da Universidade Federal do Maranh\u00e3o e membros do movimento social, criamos nessa institui\u00e7\u00e3o da Educa\u00e7\u00e3o Superior o N\u00facleo de Estudos da Am\u00e9rica Latina \u2013 NEAL. Os ventos do ideal Bolivariano sopraram fortemente e, gra\u00e7as ao esfor\u00e7o de Ludmila Lago, Raimundo Palhano, Maria Jos\u00e9 Cardoso, Fabiana, Gilm\u00e1rio, Hipolito e eu, conseguimos criar um espa\u00e7o latino americano de exposi\u00e7\u00f5es no Pal\u00e1cio do Cristo Rei, realizar Semin\u00e1rios, interc\u00e2mbios, chegando a publicar pelo menos um Caderno de Estudos. Foi um momento marcante que nos animou grandemente na d\u00e9cada de 90, quando tivemos um est\u00edmulo do amigo Jackson Lago, C\u00f4nsules e de Embaixadores, criando canais de comunica\u00e7\u00e3o com a Argentina, o Uruguai, Costa Rica, M\u00e9xico e Cuba principalmente. Com o apoio da Universidade chegamos a publicar dois livros sobre a Am\u00e9rica Latina. Certamente nossos ideais por um mundo novo n\u00e3o morreram, mas, nossos novos engajamentos e mudan\u00e7as ocorridas no panorama universit\u00e1rio da UFMA levaram a novos discernimentos&#8230; O lan\u00e7amento do livro sobre \u201cA Condi\u00e7\u00e3o Mariel: Mem\u00f3rias Subterr\u00e2neas da Revolu\u00e7\u00e3o Cubana\u201d, da autoria de Rickley Leandro Marques foi, para n\u00f3s, um momento de reflex\u00e3o e amadurecimento. N\u00e3o conhe\u00e7o pessoalmente o autor, mas quero parabenizar-lhe pela forma radical, mas sem extremismo, como trata em seu livro a hist\u00f3ria de um grupo socialmente exclu\u00eddo no avan\u00e7ar de um processo revolucion\u00e1rio, pela sua forma de pensar e agir, mesmo batalhando por ideais comuns. Na primeira parte do livro, Rickley narra com detalhes precisos e fi\u00e9is os grandes momentos da Revolu\u00e7\u00e3o Cubana, mediante a an\u00e1lise de suas fases iniciadas a partir de 8 de Janeiro de 1959 at\u00e9 o momento da alian\u00e7a com os Sovi\u00e9ticos como uma forma de sobreviv\u00eancia ao bloqueio Norte-americano. O perfil do homem novo e sua constru\u00e7\u00e3o mostram como se pensava um ser revolucion\u00e1rio e para tal, para atingir os seus padr\u00f5es, criavam-se escolas de trabalhadores, eram feitos Congressos, enfim, lutava-se pela nova Cuba, livre das teias do imperialismo. Mas, como em qualquer processo, surgem formas de pensar distintas, que s\u00e3o aceitas ou negadas pelo grupo hegem\u00f4nico e, como narra o autor do livro, a partir do chamado caso Padilha \u2013 um intelectual reconhecido pelos seus escritos e passado a ser rejeitado pelos revolucion\u00e1rios, come\u00e7a a surgir uma repress\u00e3o aos que pensavam de outro modo, que cresce e chega ao seu extremo na ocupa\u00e7\u00e3o significativa da Embaixada do Peru em Cuba. \u00c9 a\u00ed que come\u00e7a ser mais vis\u00edvel a luta dos discordantes e o aparecimento da Condi\u00e7\u00e3o Mariel A Segunda parte do livro \u00e9 dedicada ao fen\u00f4meno Mariel, ou para tratar seus membros como gente aos marielinos. E quem s\u00e3o eles? S\u00e3o intelectuais cr\u00edticos lutando pela liberdade de pensar mais livre, s\u00e3o os homossexuais, principais atores sociais inc\u00f4modos \u00e0 situa\u00e7\u00e3o revolucion\u00e1ria, que, como tal, eram identificados pelos revolucion\u00e1rios cubanos. A abertura do Porto de Mariel em Cuba para sa\u00edda destes inc\u00f4modos, certamente abriu uma nova esperan\u00e7a de vida aos marielinos, que, com todas as dificuldades, chegaram ao Porto de Cayo Hueso em Miami, nos Estados Unidos. Esperando serem bem recebidos, desde a chegada perceberam ser desagrad\u00e1vel a sua presen\u00e7a e o restante desta parte do livro \u00e9 a narrativa da via crucis desses seres humanos marcados pela condi\u00e7\u00e3o de quererem ser diferentes. Rejeitados pelos cubanos em sua terra, passam a ser rejeitados pelos cubanos sa\u00eddos nos primeiros momentos da Revolu\u00e7\u00e3o principalmente por raz\u00f5es de ordem econ\u00f4mica. A pr\u00f3pria Sociedade norte-americana os v\u00ea com certo desd\u00e9m. Os marielinos s\u00e3o ent\u00e3o v\u00edtimas de uma dolorosa exclus\u00e3o, passando \u00e0 condi\u00e7\u00e3o de outsiders, defensores da cultura cubana no ex\u00edlio sem grandes condi\u00e7\u00f5es, chegando a ter como estrat\u00e9gia de sobreviv\u00eancia uma Revista Cultural e a publica\u00e7\u00e3o de livros. \u00c9 doloroso ver a forma de tratamento recebida pelos marielinos, mas \u00e9 animadora a maneira como resistem, e, mesmo na condi\u00e7\u00e3o de exclus\u00e3o a que s\u00e3o submetidos, encontram meios para dar o seu grito. O livro levou-me a uma profunda reflex\u00e3o, ao repensar meus modos de pensar sobre o meu agir e de valorizar cada vez mais o valor da diversidade&#8230; Recomendo a quem quer ser cada vez mais impregnado pelos desejos de uma plena justi\u00e7a social, que n\u00e3o deixe de ler o livro. [1] &#8211; Roberto Mauro Gurgel Rocha \u00e9 professor aposentado da Universidade Federal do Maranh\u00e3o e\u00a0Ex-Diretor do N\u00facleo de Estudos da Am\u00e9rica Latina &#8211; NEAL.<\/p>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":310,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":[],"categories":[33],"tags":[],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/www.edufma.ufma.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/309"}],"collection":[{"href":"https:\/\/www.edufma.ufma.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/www.edufma.ufma.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.edufma.ufma.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.edufma.ufma.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=309"}],"version-history":[{"count":5,"href":"https:\/\/www.edufma.ufma.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/309\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":315,"href":"https:\/\/www.edufma.ufma.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/309\/revisions\/315"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.edufma.ufma.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/media\/310"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/www.edufma.ufma.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=309"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.edufma.ufma.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=309"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.edufma.ufma.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=309"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}